Pesca industrial está mudando o tamanho do salmão

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Estudo analisou o salmão atlântico e constatou que a pesca por rede e de sua principal presa gera pressões evolucionárias contraditórias sob seu tamanho e idade de maturidade.

O rio Tano, norte da Europa, é um dos mais importantes para o ciclo da vida do salmão atlântico. Crédito: Pekka Tuuri

Pesquisadores estudam os efeitos evolucionários da pesca e da aquicultura no tamanho e idade de maturidade do salmão atlântico (Salmo salar) no rio Tana, norte da Europa. O trabalho constatou pressões seletivas contraditórias, que favorecem diferentes indivíduos em diferentes contextos, e mostram como a criação de salmão em cativeiro (aquicultura) tem impactos na população selvagem da espécie. 

De acordo com o estudo, publicado na Sciencepesca com rede ao longo do rio cria pressões seletivas que favorecem peixes maiores e com maturidade mais lenta, enquanto a pesca de capelins – uma das principais presas do salmão, usado como fonte de proteína para aquicultura da espécie em cativeiro – favorece indivíduos menores e com maturidade mais rápida

ciclo de vida do salmão é complexo, e envolve diferentes ecossistemas. Os indivíduos nascem em água doce e em seguida migram para os oceanos, onde passam a maior parte de suas vidas (cerca de dois anos). Quando atingem a idade de maturidade e estão prontos para se reproduzir, eles retornam aos rios em que nasceram, onde procriam a próxima geração

Fêmea na sua coloração de reprodução, Rio Tana. Crédito: Panu Orell

A pesca – seja ela dos próprios salmões ou das presas de que se alimentam – altera as condições ambientais. E, dessa forma, cria novas pressões evolucionárias ao selecionar quais indivíduos sobrevivem e são capazes de se reproduzir, transmitindo seus genes para a próxima geração. 

Essas pressões favorecem indivíduos com determinadas características. Por exemplo: se, em uma população de peixes, os maiores forem sistematicamente pescados (e impedidos de se reproduzir), a tendência, ao longo das gerações, será uma diminuição na média de tamanho da espécie, causada por uma pressão que desfavorece indivíduos grandes.

Considerando as pressões seletivas, os pesquisadores trabalharam com um modelo multiespécie e multifatorial construído com dados de 40 anos (1319 indivíduos) de coleta de peixes na região. Seu principal ponto de análise foi a genética, mais especificamente a região genômica do gene vgll3, associada com a idade de maturidade e, portanto, tamanho dos peixes – quanto mais tarde um indivíduo atinge a maturidade, maior ele será ao completar seu ciclo de vida.

De acordo com seus dados, a pesca excessiva de capelins no período estudado diminuiu em muito sua população no oceano. Consequentemente, a oferta do principal alimento dos salmões também diminiu. Isso configura uma pressão que desfavorece indivíduos maiores e com idade de maturidade mais alta. Apesar desses indivíduos terem maiores chances de retornar aos rios e se reproduzirem com sucesso, eles também correm maior risco de não sobreviver no oceano até atingir este momento. Dessa forma, a falta de capelins os afeta com maior intensidade – uma pressão para diminuição no tamanho e aumento na velocidade de maturação da espécie

Mas, a pesca com rede faz uma pressão contrária: favorece estes peixes maiores e mais velhos, em detrimento dos indivíduos menores e com maturidade mais rápida. Essa tendência pode parecer contra intuitiva, mas ocorre devido aos tipos de redes usados no rio Tana. Eles capturam, proporcionalmente, muito mais indivíduos pequenos, deixando os grandes progredirem para partilharem seus genes. 

As redes de pesca por açude tendem a capturar indivíduos menores e com idade de maturidade mais rápida. Crédito: Panu Orell

Entre estas duas tendências, a segunda é a mais significativa, favorecendo indivíduos maiores no geral – ainda que ambas estejam em ação. Durante o artigo, os pesquisadores destacam as dificuldades em rastrear as pressões evolucionárias geradas pela ação humana, especialmente quando envolvem relações indiretas na cadeia alimentar, como o caso dos capelins. 

“A pesca comercial de capelins, uma espécie importante de presa de salmão, parece ter indiretamente induzido a evolução da idade de maturidade do salmão atlântico para indivíduos menores e mais jovens”, explica o artigo. “Portanto, nossos resultados identificam um novo percurso indireto através do qual a aquicultura de salmão pode afetar populações selvagens da mesma espécie, e dá ênfase à importância de identificar uma alternativa sustentável de fontes de proteína para a indústria da aquicultura”.

Segundo o artigo, as pressões seletivas podem ter consequências perigosas a longo termo – tanto do ponto de vista ecológico como da atividade econômica. Assim, seria importante minimizar impactos, tanto na superexploração dos capelins como na pesca nos rios. 

Salmões no rio Tana. Crédito: Panu Orell

Entretanto, os pesquisadores identificam a dificuldade em implementar ações sistêmicas para o segundo problema. “No vale do rio Tano, por exemplo, a pesca de salmão é tanto uma fonte essencial de renda para moradores locais através do turismo de pesca, como também o alicerce da cultura e identidade dos Sámi locais. Regulamentos restritivos de pesca podem ser controversos”, aponta o artigo.

Mas os pesquisadores destacam alternativas. “A seletividade [de tamanho] variável de diferentes tipos de redes de pesca pode ser uma maneira de manejar a pressão seletiva exercida nas diferentes idades de maturidade e genótipos ao, por exemplo, regular o uso de equipamentos de pesca”.

Publicado no site da Scientific American Brasil em 25/02/2022.

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