Pequeno caranguejo está consumindo todo capim-marinho de ilha no Atlântico

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Caranguejos Sesarma reticulatum estão remodelando a paisagem. Crédito: Esuglia / Wikimedia Commons

Localizada no meio da costa do estado norte-americano da Geórgia, a ilha Sapelo é coberta por mais de 1.618 hectares de marismas ou pântanos salgados, onde vastas áreas de gramíneas exuberantes brilham nos meses frios. Mas esta bela ilha-barreira está sendo vitimada por alguns dos mais severos efeitos das mudanças climáticas: intrusão da água do mar, tempestades e inundações.

Além disso, cientistas notaram algo mais incomum acontecendo ali nos últimos anos. Um caranguejo cavador, antes discreto e imperceptível, está erradicando extensas faixas de capim-marinho, uma planta que segura grande parte das terras alagadas costeiras do Sul da ilha e protege espécies vulneráveis. O minúsculo e herbívoro caranguejo roxo (Sesarma reticulatum) parece estar remodelando — e fragmentando — os pântanos da ilha.

Sinead Crotty, ecologista e diretora de projeto no laboratório de contenção de carbono da Universidade Yale (EUA), usou fotos aéreas para documentar o impacto da criatura nos pantanais da costa Sudeste dos EUA. Para investigar as mudanças, Crotty e seus colegas combinaram a análise das imagens aéreas com os históricos de dados de marés e modelos numéricos da elevação do nível do mar.

Os resultados, publicados em Proceedings of the National Academy of Sciences USA, mostram que os caranguejos estão alterando a resposta dos marismas ao aumento do nível do mar ao se empanturrarem de capim-marinho nas cabeceiras dos esteiros, que são estreitos canais de maré. Os pesquisadores dizem que a elevação do nível da água, decorrente das mudanças climáticas, amoleceu os solos pantanosos, criando condições ideais para que os bichos possam escavar e criar novas tocas. O aumento na atividade dos caranguejos então resulta em riachos mais longos e largos, que drenam os pântanos para o oceano. Ao longo de anos, esse processo faz com que essas terras pantanosas deixem de ser campos coesos cobertos por plantas gramíneas, e se tornem pequenas áreas que são atravessadas pelos riachos manipulados pelos crustáceos.

Essa descoberta desafia o paradigma estabelecido de que a resposta dos marismas à elevação dos mares só pode ser moldada por fluxos d’água, sedimentos, plantas e atividades humanas — e não por atividades animais. Os pesquisadores afirmam que o Sesarma reticulatum pode ser o primeiro organismo identificado a atingir o status de uma espécie-chave, que são os organismos que têm uma imensa influência sobre seu ecossistema devido às mudanças climáticas. E é pouco provável que não existam outros.

Crotty diz que é desconcertante que “este organismo muito pequeno, com algo entre 2,5 cm e 5 cm de diâmetro, possa alterar uma coisa tão grande como toda uma paisagem pantanosa visível nas imagens do Google Earth”.

Os cientistas que trabalham no litoral da Geórgia já sabiam que caranguejos Sesarma estavam expandindo riachos e canais de marés ao se alimentarem de capim-marinho, diz Merryl Alber, diretora do Instituto Marinho da Universidade da Geórgia na ilha Sapelo. Mas o novo trabalho sugere que, no longo prazo, as ações dos caranguejos podem estar acelerando a perda dos pântanos para os mares em elevação. “Isso mostra que nossos pantanais podem ser mais vulneráveis do que pensávamos”, diz ela. Alber não esteve diretamente envolvida no estudo, mas o instituto forneceu apoio logístico à equipe de pesquisa.

Crotty se deparou com os Sesarma pela primeira vez quando estudante de graduação no laboratório do coautor do estudo, Mark Bertness, na Universidade Brown. Em 2011, a equipe de Bertness descobriu que os caranguejos estavam por trás de súbitos desaparecimentos de marismas em Cape Cod, depois que a sobrepesca havia reduzido populações de seus predadores, tais como as de robalos riscados (Morone saxatilis). Anteriormente, solos pantanosos mais ao sul tinham sido demasiado duros para os crustáceos conseguirem uma significativa força de sustentação para suas garras, e Crotty e seus colegas se perguntaram se a elevação do nível do mar poderia estar deixando essas camadas mais moles.

A equipe analisou dados de marés e descobriu que os pântanos do sul agora ficam submersos por até uma hora por dia amais do que ficavam nos anos 1990. Os pesquisadores dizem que esse processo de fato amoleceu o solo, ajudando os caranguejos cavadores a prosperar. Fotografias aéreas ao longo da costa sudeste dos EUA indicam que o número de esteiros devorados pelos Sesarma aumentou em uma média de duas vezes e meia dos anos 1990 até o final da década de 2010. Em estudos de campo, a equipe constatou que a rápida expansão dos esteiros pastados pelos caranguejos aumentou a drenagem do pântano em até 35%.

Ao exterminarem o capim-marinho, os crustáceos também destroem a cobertura que serve de proteção para animais ecologicamente críticos, incluindo lesmas, caramujos e outros moluscos. Os pesquisadores verificaram os níveis depredação na ilha Sapelo ao amarrarem caramujos e mexilhões a linhas de pesca perto de esteiros pastados e não pastados. Eles descobriram que essa perda de cobertura pode deixar pequenos invertebrados mais vulneráveis aos rompantes alimentares de espécies predadoras, diz Crotty, potencialmente perturbando ecossistemas inteiros.

Atividades humanas estão redefinindo quais espécies detêm a maior dominância sobre comportamentos ecossistêmicos, diz Christine Angelini, ecologista na Universidade da Flórida e principal pesquisadora do estudo. Devido à sobrepesca e às mudanças climáticas, observa ela, os caranguejos estão “causando estragos por toda parte” através de sua área de alcance.

As mudanças climáticas deram uma perigosa vantagem a várias espécies. Assim, o aquecimento e a acidificação dos oceanos facilita que predadores tais como o ouriço-do-mar fiquem roendo os corais. As plantas nativas estão perdendo terreno para variedades exóticas que são capazes de florescer mais cedo à medida que o clima esquenta. No Caribe, temperaturas mais altas poderiam facilitar a expansão da espécie invasora do peixe-leão, um destruidor de recifes. Mas não há registro anterior de quais organismos desse tipo gerassem os efeitos que estão sendo vistos com o Sesarma reticulatum sobre o funcionamento do ecossistema, indo desde o seu formato até a interação entre predadores e presas.

“Não há razão para duvidar que as mudanças climáticas vão alterar as interações entre as espécies, a ponto de que surgirão novas espécies-chave”, diz Linda Blum, ecologista na Universidade da Virgínia, não envolvida no estudo. Mas, diz ela, a conclusão da equipe de que a elevação do nível do mar ao amolecer solos pantanosos cria um novo hábitat para os caranguejos se baseia em “muitas evidências circunstanciais”. Ela sugere que a ideia deva ser testada com experimentos de campo para determinar se as atividades dos próprios crustáceos poderiam contribuir para que possam se entocar com mais facilidade.

Agora os pesquisadores estão investigando como a intensa atividade dos caranguejos Sesarma na ilha Sapelo possa estar resultando na liberação do carbono do solo para o ar. Também investigam se os crustáceos estão aumentando as concentrações de contaminantes em áreas próximas aos depósitos de materiais tóxicos nocivos, ao acumularem essas substâncias químicas em seus corpos.

Mais estudos também serão necessários para entender se os caranguejos estão influenciando quão rapidamente os mares se movem para o interior, diz Angelini. “Não sabemos se este é o primeiro passo para que o pântano venha a afundar, ou se os pântanos permanecerão estáveis e persistirão por décadas nesse estado fraturado”.

Stephenie Livingston

Publicado originalmente na edição de fevereiro de 2021 da Scientific American Brasil; aqui em 28/03/2022.

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