Pela primeira vez, uma espécie de peixe marinho é declarada extinta

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Pesca, poluição e mudanças climáticas afetam a região onde antes vivia uma espécie dos chamados “peixes com mãos”, que não é mais vista há quase um século.

Espécime de peixe pertence ao gênero dos chamados peixes com mãos. Crédito: De R. Kuiter – Miya et al. 2010. Evolutionary history of anglerfishes (Teleostei: Lophiiformes): a mitogenomic perspective. BMC Evolutionary Biology

Por muitos séculos, a humanidade enxergou nos oceanos uma vastidão tamanha que parecia simplesmente impossível causar a eles algum dano mais duradouro. Porém, sabemos agora que as nossas atividades podem destruir importantes habitats, poluir perigosamente a água do mar e deixar os ambientes marinhos mais ácidos. O excesso de exploração rompe cadeias alimentares e empurrou diversas espécies oceânicas para a categoria das criticamente ameaçadas, e levou alguns animais, incluindo a vaca-marinha-steller, à extinção total. No último mês de março, o peixe Sympterichthys unipennis, pertencente à família dos chamados “peixes com mãos”, tornou-se oficialmente o primeiro peixe marinho a ser declarado extinto em tempos modernos.  

Os “peixes com mãos” são uma família de 14 espécies inusitadas, relacionadas a uma ordem de peixes ósseos do fundo do mar. Diferentemente da maioria dos peixes, eles não possuem uma fase larval e não se movimentam muito quando adultos. Esses traços os tornam sensíveis a mudanças no ambiente, de acordo com Graham Edgar, ecologista marinho da Universidade da Tasmânia. “Eles passam a maior parte do tempo à espreita nas plataformas continentais, eventualmente se deslocando alguns metros se forem incomodados”, diz Edgar. “Como não tem estado larval, não podem se dispersar para outras localizações e por isso as populações de peixes com mãos são muito fáceis de localizar e vulneráveis a ameaças”. Em 1996, ele acrescenta, outra espécie, chamada de peixe com mão manchado, foi o primeiro peixe marinho a ser apontado como em perigo crucial e relacionado na Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). 

Essa espécie de peixe com mão já foi comum o suficiente para ter sido ser uma das primeiras espécies de peixe descritos pelos exploradores europeus na Austrália. Agora, nenhum exemplar foi reportado em quase um século, apesar das muitas expedições que coletaram amostras nas regiões onde ele vivia (incluindo algumas conduzidas por Edgar e seus colegas). O guia da Lista Vermelha define oficialmente “extinto” como significando que “não há qualquer  dúvida de que o último indivíduo morreu”. Edgar e os membros da Equipe Nacional de Recuperação dos peixes com mão da Austrália foram levados a essa conclusão no início deste ano, e a Lista Vermelha classificou a espécie na categoria de extintas. Os cientistas não têm certeza quanto ao que exatamente causou a extinção, mas outras espécies que vivem na região estão ameaçadas pela pesca, pela poluição e pelas alterações climáticas

 Edgar diz que outras espécies de peixes marinhos podem já ter se extinguido também, embora os cientistas ainda não possam afirmar categoricamente. Muitas outras estão em perigo constante. “Pode ser difícil imaginar por que um organismo pequeno, ocupando um nicho pequeno em um local que poucos humanos visitam possa ser importante,  mas, neste momento, é a enzima de um microrganismo extremófilo que está sendo utilizada em testes para diagnosticar a COVID-19”, diz Katie Matthews, cientista chefe do grupo sem fins lucrativos Oceana. “A biodiversidade é importante, mesmo se você não consegue vê-la com seus próprios olhos”, afirma ela. 

O ideal é que esta notícia sirva como grito de alerta. “Algumas espécies remanescentes de peixes com mão estão em perigo”, diz Matthews, “mas, com ações inteligentes, nós podemos mitigar tais ameaças”. 

David Shiffman

Publicado em 13/07/2020 no site da Scientific American Brasil.

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