Mudanças climáticas estão deixando o oceano sem oxigênio

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Profundidades intermediárias serão as mais afetadas pela desoxigenação — até 2080, cerca de 70% do oceano poderá sofrer com a falta do gás.

A desoxigenação do oceano pode afetar diversas espécies comercialmente importantes. Crédito: joakant/Pixabay

Nova pesquisa analisa o declínio nos níveis de oxigênio dissolvido no oceano — a desoxigenação, ou hipóxia oceânica — causado principalmente pelas mudanças climáticas e faz projeções preocupantes para sustentabilidade de ecossistemas marinhos e da pesca. Os dados indicam que em 2021 o oceano começou a perder oxigênio para além das variações naturais na concentração do gás, e até 2080, 70% do oceano pode ser afetado pela desoxigenação

Cientistas vêm estudando há décadas o declínio nos níveis de oxigênio dissolvido no oceano. Mas, este estudo, publicado no periódico Geophysical Research Letters, é o primeiro a fazer suas projeções a partir de modelos climáticos

A relação entre o clima global e o oceano é muito próxima: a intensificação do efeito estufa e o consequente aquecimento da atmosfera — gerado principalmente pelas emissões de dióxido de carbono durante a queima de combustíveis fósseis, desmatamento e outras atividades humanastambém aquece o oceano, diminuindo assim sua capacidade de reter gases dissolvidos, essenciais para vida marinha.

Dessa forma, o estudo destaca a zona mesopelágica do oceano — de profundidade média, entre 200 e 1000 metros a partir da superfície —, que é a primeira a ser afetada pela desoxigenação para além da variação natural, um limiar atravessado em 2021 e que pode ser irreversível. O dado é especialmente preocupante considerando que muitas espécies importantes para pesca comercial vivem nesta zona.  

“Esta zona é muito importante para nós porque muitos peixes comerciais vivem nela”, explica Yuntao Zhou. Ela é oceanógrafa na Universidade Jiao Tong de Xangai (China) e principal autora do estudo. “Desoxigenação também afeta outros recursos marinhos, mas a pesca é talvez a mais conectada com nosso cotidiano”. Segundo os pesquisadores, o problema poderá causar escassez de frutos do mar, e até impactos econômicos significativos para comunidades que dependem da pesca. 

A explicação para a desoxigenação acelerada desta zona está na maneira como o oceano obtém seu oxigênio. As principais fontes são algas, cianobactérias e outros organismos fotossintetizantes, que produzem oxigênio gasoso a partir da luz solar; e também a incorporação direta de oxigênio atmosférico, a partir do contato com a superfície

Assim, considerando que a penetração da luz no oceano cai conforme a profundidade, a maior parte da produção de oxigênio ocorre próxima a superfície — e, é claro, toda incorporação atmosférica —, estratificando a concentração do gás, que apenas se propaga para zonas inferiores através da difusão. A zona mesopelágica é a segunda com mais oxigênio, atrás apenas da zona epipelágica — a camada superficial. Sem uma fonte própria do gás, ela é especialmente afetada pela desoxigenação — algo intensificado pelas reações de decomposição de algas mortas, que ocorrem principalmente nessa profundidade, e consomem seu oxigênio

Segundo Matthew Long, oceanógrafo no Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas (EUA), não envolvido com o estudo, as descobertas são preocupantes, e destacam a importância de ações dinâmicas contra os efeitos das mudanças climáticas. “A humanidade está atualmente mudando o estado metabólico do maior ecossistema do planeta, com consequências extremamente incertas […]”, afirma ele. “Isso pode ocasionar impactos significativos na capacidade do oceano de sustentar recursos pesqueiros importantes”.

Ainda que, até agora, os efeitos estejam concentrados na zona mesopelágica, o estudo indica que não vai demorar muito para que o problema se espalhe para outras zonas. Para medir quando a desoxigenação começaria de forma generalizada, os cientistas produziram dois modelos, considerando diferentes níveis de emissões de gases do efeito estufa

Assim, o primeiro modelo considerou um cenário de emissões altas, nos níveis atuais, resultando em uma desoxigenação generalizada, em 70% do oceano e afetando todas as zonas até 2080. Já o segundo, que considerou emissões baixas, revelou que o problema demoraria mais 20 anos para se espalhar pelo oceano — indicando que políticas de mitigação dos efeitos do aquecimento global ajudam a atrasar e conter a desoxigenação. Ainda assim, em ambos a zona mesopelágica foi a mais rapida e intensamente afetada

O estudo também revelou que os efeitos são mais intensos próximos aos polos — em águas do norte e oeste do Pacífico, e em área ao sul do globo. Os cientistas ainda não possuem uma explicação definitiva para essa diferença, mas acreditam que ela se deve a um aquecimento exacerbado nessas regiões, acelerando os impactos no oceano. 

Além disso, o estudo revelou que as zonas de oxigênio mínimo, também chamadas de zonas mortas ou zonas de sombra, comuns ao redor dos trópicos, parecem estar se espalhando. Elas são especialmente perigosas para seres marinhos fixos ao substrato ou de locomoção lenta, pois não possuem oxigênio suficiente para sustentá-los, e podem levar à asfixia

“Zonas de oxigênio mínimo estão se espalhando até áreas de altas latitudes, tanto para o norte como para o sul. Isso é algo em que precisamos prestar mais atenção”, explica Zhou. Assim, segundo ela, mesmo se os efeitos do aquecimento global forem revertidos, permitindo que o oceano volte a temperaturas em possa reter mais oxigênio, “ainda restam dúvidas se o oxigênio dissolvido retornaria a níveis pré-industriais”.

Publicado originalmente no site da Scientific American Brasil em 11/02/2022.

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